Rastreabilidade Agropecuária e o Novo Mapa de Riscos do Agro Brasileiro

Introdução

As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção futura para se tornarem um fator concreto de risco operacional, financeiro e jurídico no agronegócio brasileiro. Eventos extremos — como secas prolongadas, chuvas concentradas, geadas fora de época e ondas de calor — afetam diretamente a previsibilidade da produção e redesenham o mapa de riscos no campo.

Nesse novo cenário, instrumentos como o zoneamento agrícola, o seguro rural, a subvenção estatal e as estratégias de adaptação regional assumem papel central na sustentabilidade da atividade agropecuária.


Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC)

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), coordenado pelo Ministério da Agricultura, é o principal instrumento técnico de mitigação de riscos climáticos no Brasil. Ele orienta:

  • épocas adequadas de plantio;
  • cultivares indicadas por região;
  • acesso ao crédito rural e ao seguro agrícola.

Com a intensificação dos eventos climáticos extremos, o ZARC vem passando por revisões frequentes, o que tem gerado:

  • redução das janelas de plantio;
  • exclusão de áreas antes consideradas aptas;
  • aumento da vulnerabilidade de produtores com menor capacidade de adaptação.

O plantio fora das diretrizes do ZARC pode resultar em perda do direito à indenização do seguro, restrições ao crédito oficial e maior exposição ao prejuízo total.


Perdas Recorrentes e o Fim da Exceção Climática

O que antes era tratado como evento climático excepcional tornou-se recorrente. Safras consecutivas com quebra de produtividade, necessidade de replantio e elevação do custo por hectare passaram a fazer parte da realidade produtiva.

Esse cenário impacta diretamente:

  • o fluxo de caixa do produtor;
  • a capacidade de honrar financiamentos;
  • a sucessão familiar no campo.

Regiões como o Sul, o Cerrado e partes da Amazônia Legal já sentem esses efeitos de forma estrutural.


Seguro Rural: Essencial, Porém Insuficiente

O seguro rural deixou de ser um instrumento opcional e passou a ser uma ferramenta de sobrevivência econômica. Ainda assim, o modelo atual enfrenta entraves relevantes:

  • alto custo dos prêmios;
  • cobertura limitada;
  • exclusões por eventos considerados sistêmicos.

A subvenção estatal ao prêmio do seguro é fundamental para viabilizar sua contratação, especialmente para pequenos e médios produtores, culturas mais sensíveis ao clima e regiões de maior risco climático.


Crédito Rural e Subvenção: Proteção ou Barreira?

O crédito rural tem sido utilizado como instrumento de gestão de riscos climáticos e ambientais, exigindo do produtor:

  • observância ao ZARC;
  • adoção de práticas conservacionistas;
  • regularidade ambiental.

Embora necessárias, essas exigências podem se transformar em barreiras indiretas quando não há assistência técnica suficiente ou quando os custos de adaptação recaem integralmente sobre o produtor.


Adaptação Regional: Do Discurso à Prática

A adaptação climática já está em curso no campo, ainda que de forma desigual.

Agricultura

  • escalonamento de plantio;
  • uso de cultivares mais resistentes;
  • integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF);
  • plantio direto e conservação do solo.

Pecuária

  • manejo de pastagens mais resilientes;
  • sombreamento e conforto térmico;
  • ajuste da taxa de lotação;
  • diversificação forrageira.

Regiões Mais Sensíveis

  • Sul: necessidade de drenagem, seguro mais robusto e diversificação de culturas;
  • Cerrado: retenção de água no solo e manejo de veranicos;
  • Amazônia Legal: conciliação entre produção, clima e exigências ambientais crescentes.

Novo Mapa de Riscos Climáticos por Região

O novo mapa de riscos do agronegócio brasileiro é regional, climático e econômico. Culturas tradicionais passam a apresentar riscos distintos conforme a região, impactando diretamente o ZARC, o seguro rural e o crédito.


Conclusão: Produzir é Gerir Riscos

Produzir bem já não é suficiente. O agronegócio brasileiro exige, cada vez mais, gestão integrada de riscos climáticos, financeiros e jurídicos.

Sem um ZARC atualizado e regionalizado, seguro rural acessível, subvenção estável e políticas de adaptação realistas, o risco é transferir integralmente ao produtor um problema que é estrutural e sistêmico.

Novo Mapa de Riscos Climáticos por Região

RegiãoPrincipais riscos climáticos atuaisTendência observadaImpacto direto no agro
SulSecas prolongadas, chuvas concentradas, enchentes e geadas irregularesMaior variabilidade extremaQuebras recorrentes, replantio, aumento do custo do seguro
SudesteIrregularidade de chuvas, ondas de calor, estiagensRedução da previsibilidadeImpactos em café, milho safrinha e pastagens
Centro-Oeste (Cerrado)Veranicos, atraso das chuvas, calor intensoEstações menos definidasRisco ao calendário do ZARC
Nordeste (Semiárido)Secas prolongadas, desertificação localizadaAgravamento estruturalLimitação produtiva e exclusão do seguro
Amazônia LegalExcesso hídrico, instabilidade climática, restrições ambientaisCrescente pressão regulatóriaAumento de custos e insegurança jurídica

Soja: Riscos, ZARC e Adaptação

RegiãoRiscos climáticos predominantesReflexos no ZARCEstratégias de adaptação
SulSeca no florescimento, excesso de chuva na colheitaRedução de janelasCultivares precoces, escalonamento
Centro-OesteVeranicos no enchimento de grãosPlantio mais restritoPlantio direto, retenção hídrica
SudesteIrregularidade de chuvasMaior risco médioManejo de solo e rotação
MATOPIBAChuvas tardias e calorAlto risco climáticoAjuste de época e seguro robusto

Milho (1ª e 2ª Safra)

RegiãoTipo de milhoPrincipais riscosSituação do seguro
SulSafra verãoSeca e excesso hídricoAlta sinistralidade
Centro-OesteSafrinhaFalta de chuva pós-sojaSeguro mais caro
SudesteSafrinhaEstresse térmicoCobertura limitada
NordesteVerãoIrregularidade extremaBaixa oferta de seguro

Café: Mudanças Climáticas e Risco Estrutural

Região produtoraRiscos atuaisEfeitos produtivosMedidas adotadas
Sul de MinasGeadas irregulares e calorPerda de floradaSombreamento e irrigação
Cerrado MineiroEstresse hídricoQueda de produtividadeIrrigação localizada
Espírito SantoOndas de calorRedução do vigorClones mais resistentes
São PauloChuvas irregularesImpacto na qualidadeManejo climático fino

O café deixa de ser um risco conjuntural e passa a representar um risco estrutural climático.


Pecuária: Impactos Climáticos e Adaptação

RegiãoRisco climáticoImpacto no rebanhoEstratégias
Centro-OesteSeca prolongadaQueda de pastoILPF, ajuste de lotação
SulInverno irregularDéficit forrageiroSilagem e suplementação
NordesteEscassez hídricaMortalidade e baixa taxaPalma, sorgo e reserva
AmazôniaExcesso de chuva e pressão ambientalRestrição produtivaManejo rotacionado e rastreabilidade

Na pecuária, o risco climático se soma ao risco ambiental e de mercado.


Relação entre Risco Climático, Seguro e Subvenção

SituaçãoConsequência prática
Fora do ZARCPerda do seguro e do crédito
Subvenção insuficienteSeguro inviável financeiramente
Alta sinistralidade regionalRetirada das seguradoras
Falta de adaptaçãoEndividamento recorrente

Síntese Estratégica

  • O novo mapa de riscos é regional, climático e econômico.
  • Culturas tradicionais passam a ter riscos diferentes conforme a região.
  • O seguro rural depende diretamente do ZARC e da subvenção estatal.
  • A adaptação não é mais opcional, mas condição de permanência no campo.

Fonte: Pesquisa em fontes oficiais e referências técnicas públicas.


Autor: Edi Mendonça
Belém/PA, 28 de janeiro de 2026

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